Artista reconhecido internacionalmente, Vik Muniz (1961, São Paulo) ganha sua mais completa e abrangente retrospectiva, com um conjunto de mais de 200 trabalhos produzidos por ele desde os anos 1980 até os dias de hoje, percorrendo 37 diferentes séries. O curador Daniel Rangel, diretor do Museu de Arte Contemporânea da Bahia, e observador do trabalho de Vik Muniz há 25 anos, destaca que a exposição “propõe um passeio pela produção do artista”. “Exploramos seus processos e caminhos por meio de um mergulho cronológico que lança luz sobre a criação de um artista cuja genialidade está explícita na rigorosa simplicidade que orquestra ao longo de sua robusta trajetória”, explica.

Neste raro e inédito conjunto de obras, o público verá a escultura “Concretismo Clássico”(2025), em mármores e granitos, produzida especialmente para esta retrospectiva no Instituto Ricardo Brennand, em que Vik Muniz faz alusão às esculturas do local e também aos seus primeiros trabalhos, que eram tridimensionais. O público verá notórias séries do artista, que explorou diversos materiais – açúcar, feijão, lixo, diamantes, caviar, terra, cédulas de real (fornecidas pela Casa da Moeda), entre muitos outros – para discutir questões de nosso tempo.

“Vik Muniz é um ilusionista – um mágico na construção de imagens que não existem, mas que se tornam reais”, afirma Daniel Rangel. “Suas obras possuem camadas que tensionam diferentes questões de cunho poético – aspectos formais e processuais – e político, abordagens e relações que estabelece com o sistema da arte”. O curador complementa: “As obras dialogam com essas camadas do cotidiano, atravessando os espectadores por meio de um encantamento visual e um deslumbramento processual que despertam distintas interpretações cognitivas e sentimentos de afetividade e pertencimento”.
Para explicar o processo criativo de Vik Muniz, o curador chama o artista de “fotógrafo agricultor”, “um jardineiro que utiliza sementes diversas – açúcar, chocolate, caviar, diamantes, brinquedos de plástico, revistas, cartões-postais e até mesmo resíduos — que florescem em potentes imagens, ‘re-retratando’ aquilo que parece já termos visto”. O artista cria imagens usando determinados materiais, e as fotografa. “Isso captura nosso olhar e ativa nossa mente”, assinala Daniel Rangel. “Sem dúvida, Vik se tornou um dos principais fotógrafos agricultores da atualidade, seja por sua projeçãointernacional, seja pela longevidade de sua prática e pelas inúmeras séries que realizou”.

Além das obras iniciais de Vik Muniz, dos anos 1980, algumas das 37 séries de obras que serão exibidas são:“Imagens de arame”, “Imagens de linha”, “Crianças de açúcar”,“Imagens de terra”,“Imagens de chocolate”, dos anos 1990; “Imagens de caviar”, “Imagens de diamantes”, “Pictures of Earthworks”,“Imagens de sucata”,“Imagens de lixo”, dos anos 2000; “Dinheiro Vivo” (2022 e 2024), e obras feitas com manteiga de amendoim e geleia – “Duas vezes Mona Lisa (1999), da série “After Warhol”; com um prato de macarrão e molho – “Medusa Marinara” (1997); ou com feijão: “Che, a partir de Alberto Korda” (2000).

Daniel Rangel salienta também que a exposição “aproxima a produção de Vik do universo (pop)ular, tão presente e recorrente na cultura nordestina – seja pela utilização de elementos do cotidiano, pela forma como os organiza ou pelas imagens que produz”. “Uma amálgama de temas, cores e materiais que pode ser observada em feiras livres, nas ruas e calçadas, nos bairros e festas populares, nas gambiarras, nos filmes da televisão, na liberdade das composições e na imaginativa criatividade do povo nordestino”. No Octógono, dentro da Galeria Lourdes Brennand, haverá uma linha de tempo e será exibido um vídeo com depoimentos de Vik Muniz. E somente na Revista Philos você lê com exclusividade o texto curatorial da exposição escrito por Daniel Rangel:
A OLHO NU – VIK MUNIZ
“A vida é um constante ato de equilíbrio entre a ilusão e a realidade”. –Harry Houdini
A visão é um dom. Embora o olho seja o veículo visionário primordial, é no cérebro que as imagens ganham significado. Enxergamos o possível de acordo com nossas afinidades, capacidades e limitações — e não necessariamente o que de fato é, ou o que os outros estão vendo ou desejam mostrar. A realidade enxergada é uma inevitável ilusão de ótica pessoal, que cada um compreende e interpreta à sua maneira.
A ilusão de ótica é um fenômeno que pode ser fisiológico, cognitivo ou literal, sendo amplamente utilizada por artistas — como no trompe l’œil, onde a visão é “confundida” de maneira engenhosa. O que vemos não é exatamente o que é, mas torna-se real a partir do momento em que o identificamos como tal. Um reconhecimento que é sempre fruto da imaginação combinado com referências adquiridas e uma aceitação daquela realidade.
Vik Muniz é um ilusionista — um mágico na construção de imagens que não existem, mas que se tornam reais. Suas obras possuem camadas que tensionam diferentes questões de cunho poético — aspectos formais e processuais — e político, abordagens e relações que estabelece com o sistema da arte.
A exposição “A olho nu – Vik Muniz” propõe um passeio pela produção do artista, desde suas obras tridimensionais, criadas antes do uso da câmera fotográfica, até suas séries de fotos mais conhecidas e as mais recentes. O recorte apresentado inclui esculturas, objetos e dezenas de fotografias nas quais deslocamento de funções e reconfigurações de objetos do mundo estão evidentes e servem como fio condutor da seleção.
Esse conjunto aproxima a produção de Vik do universo (pop)ular, tão presente e recorrente na cultura nordestina — seja pela utilização de elementos do cotidiano, pela forma como os organiza ou pelas imagens que produz. Uma amálgama de temas, cores e materiais que pode ser observada em feiras livres, nas ruas e calçadas, nos bairros e festas populares, nas gambiarras, nos filmes da televisão, na liberdade das composições e na imaginativa criatividade do povo nordestino.
As obras dialogam com essas camadas do cotidiano, atravessando os espectadores por meio de um encantamento visual e um deslumbramento processual que despertam distintas interpretações cognitivas e sentimentos de afetividade e pertencimento. Trata-se, na verdade, da ativação da cosa mentale, mencionada por Marcel Duchamp — uma ideia que é formalizada por um suporte que se torna meio. No caso de Vik, os objetos do mundo e a fotografia. Estamos vendo chocolate ou caviar? Jackson Pollock ou Che Guevara? Uma fotografia? Uma escultura de comida? Tudo que vemos se transforma e transmuta diante de nossos olhos.
Vik é um fotógrafo agricultor, um jardineiro que utiliza sementes diversas — açúcar, chocolate, caviar, diamantes, brinquedos de plástico, revistas, cartões-postais e até mesmo resíduos — que florescem em potentes imagens, re-retratando aquilo que parece já termos visto. Um déjà vu de forma e conteúdo: reconhecemos a figura retratada, assim como os materiais com os quais ela foi concebida, mas algo parece fora do lugar. Isso captura nosso olhar e ativa nossa mente.
O termo “fotógrafo agricultor” foi cunhado por Jeff Wall, em contraposição à expressão “fotógrafo caçador”, designada por Ansel Adams. O fotógrafo caçador é aquele que utiliza a câmera como uma espingarda, em busca da imagem perfeita, do momento mágico que ocorre ao seu redor — e que se estende ao fotojornalismo, à fotografia esportiva, de natureza, do cotidiano. O agricultor, por sua vez, constrói as imagens antes de executá-las — pensa, desenha, rabisca, testa, repete — e utiliza a máquina fotográfica para registrar uma composição previamente elaborada. Sem dúvida, Vik se tornou um dos principais fotógrafos agricultores da atualidade, seja por sua projeção internacional, seja pela longevidade de sua prática e pelas inúmeras séries que realizou.
Sua inspiração surgiu do avesso — da análise de fotografias feitas por outros de seus objetos tridimensionais da série “Relicários” (1989-2025), aqui apresentados. Ângulos errados, enquadramentos insatisfatórios e iluminações inadequadas, mas, ao mesmo tempo, transformações imagéticas provocadas pelo congelamento daquelas perspectivas, despertaram no artista a percepção das ausências e potências da linguagem fotográfica. Assim, decidiu assumir os registros de suas próprias criações — que passaram a ser as próprias obras — no avesso do avesso, dando nova torção ao seu assunto principal.
Na exposição “A olho nu”, exploramos seus processos e caminhos por meio de um mergulho cronológico que lança luz sobre a criação de um artista cuja genialidade está explícita na rigorosa simplicidade que orquestra ao longo de sua robusta trajetória. Vik vem construindo um panteão pictórico no qual os deslocamentos — de iconografias, materiais, técnicas, suportes e linguagens — são procedimentos centrais. Um transmutar de funções originais que torna o espectador cúmplice de um fazer artístico que nos captura como na mágica, pois conforme afirmou Houdini “a magia não reside nos truques que realizo, mas sim na capacidade de assombrar e maravilhar as pessoas”.
Um surrealismo fantástico e inventivo que coloca nossa própria realidade em xeque, sendo desafiada pela realidade poética criada pelo artista — uma poética que provoca encantamentos e questionamentos. Afinal, estamos vendo a Medusa? Ou apenas sobras de espaguete em um prato fundo? Serão as duas coisas, ou uma criação do acaso minuciosamente pensada? Para enxergarmos a poética que Vik propõe, precisamos nos despir de uma visão tradicional — e deixar nosso olho nu.
Vik Muniz nasceu em 1961, em São Paulo, de pais imigrantes do Ceará e de Minas. Ele tem ateliês no Rio de Janeiro, Nova York e Salvador, e sua obra questiona e tensiona os limites da representação. Apropriando-se de matérias-primas como açúcar, feijão, chocolate e até lixo, o artista meticulosamente compõe paisagens, retratos e imagens icônicas retiradas da história da arte e do imaginário da cultura visual, propondo outros significados para esses materiais e para as representações criadas. Vik Muniz também se destaca pelos projetos sociais que coordena, partindo da arte e da criatividade como fator de transformação em comunidades brasileiras e criando, ainda, trabalhos que buscam dar visibilidade a grupos marginalizados na nossa sociedade. Suas obras integram acervos como: Centre Georges Pompidou, Paris; Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri; Museum of Contemporary Art, Tóquio; Solomon R. Guggenheim Museum, e Museum of American Art, em Nova York, Estados Unidos; e Tate Gallery, Londres.

O Instituto Ricardo Brennand, aberto em 2002, ao longo dos anos, consolidou-se como um polo cultural de grande relevância, promovendo exposições, eventos e atividades educativas que já atraíram mais de 3,5 milhões de visitantes de todo o Brasil e do mundo. Em 2014 e 2015, o TripAdvisor elegeu o Instituto como o melhor museu da América do Sul e o 17º do mundo. Já em 2017, foi eleito o melhor museu do Brasil no prêmio Traveller’sChoiceAward, destaque anual, pela plataforma TripAdvisor.Com sua arquitetura inspirada nos castelos medievais ingleses (estilo Tudor), possui instalações museológicas modernas, apresentando um acervo artístico e histórico originário da coleção particular do pernambucano e fundador, Ricardo Coimbra de Almeida Brennand, com destaque para a coleção Frans Post e o Brasil Holandês. A coleção de pinturas de Frans Post do Instituto RB é a única no mundo a reunir quadros de todas as fases da carreira do “primeiro pintor das paisagens brasileiras”. O centro cultural da Várzea, em Recife, ocupa uma área cercada por reserva de mata atlântica onde ficam distribuídos seus espaços de exposição: Pinacoteca, Castelo São João, Galeria Lourdes Brennand e a Capela Nossa Senhora das Graças.”A obra de Vik Muniz convoca o nosso olhar a revisitar os silêncios sociais que atravessam as diferentes desigualdades do Brasil. Trazer esta exposição para Pernambuco reforça o compromisso do Instituto Ricardo Brennand com a promoção da arte e da cultura brasileiras, fazendo circular no Nordeste a retrospectiva de um dos artistas mais reconhecidos da arte contemporânea do mundo”, afirma Nara Galvão, diretora do Instituto RB. A exposição “Vik Muniz – A olho nu” está com agendamento de visitas escolares abertas. As instituições de ensino público e particulares interessados devem entrar em contato com o setor educativo do Instituto para garantir vaga nas visitas mediadas.
Serviço: Exposição “Vik Muniz – A Olho Nu”, de 13 de junho a 31 de agosto de 2025, no Instituto Ricardo Brennand, na Alameda Antônio Brennand, s/n, Várzea, Recife. Funcionamento (horário estendido): terça a domingo, das 10h às 17h (última entrada às 16h30). Ingressos online na bilheteria local.
